Com dados alarmantes de feminicídio e discursos contundentes, deputadas petistas e a ministra das Mulheres reafirmam compromisso com a agenda feminista no Dia Internacional da Mulher

A Câmara dos Deputados realizou nesta quarta-feira (4) Sessão Solene em Homenagem ao Dia Internacional da Mulher. A data reuniu parlamentares, lideranças da sociedade civil e a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, em um plenário tomado por vozes que alternaram entre a denúncia da violência de gênero, a cobrança por políticas públicas e a defesa do fim da jornada 6×1.
Nenhuma a menos

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, reafirmou o caráter suprapartidário da pauta. “Quando falamos da agenda das mulheres, estamos falando de uma pauta que ultrapassa governos, partidos e conjunturas políticas. A defesa da vida, da dignidade e dos direitos das mulheres é uma agenda suprapartidária, é uma agenda da sociedade brasileira e uma agenda do futuro. Não se trata de uma pauta de um governo, trata-se de uma pauta de civilização”, afirmou.
A ministra destacou o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio como expressão desse compromisso, explicando que “ele estabelece um compromisso entre os três poderes da República: Executivo, Legislativo e Judiciário. Nenhum poder, nenhuma instituição, nenhum ente federativo pode se eximir dessa responsabilidade”, disse.
Fim da escala 6×1

A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) conectou o fim dessa extenuante jornada à vida concreta das mulheres. “O fim da escala 6×1 é uma dinâmica de exercício diário do trabalho para que não se roube às mulheres a possibilidade do descanso, do lazer e do cuidado maior de si e de sua família. Isso também se traduz em maior proteção. Pode parecer simples essa afirmação, mas não é”, afirmou a parlamentar. Segundo Benedita, “a nossa luta é por um projeto de país e de sociedade e é, sobretudo, pela vida das mulheres. Quando uma mulher morre, toda a sociedade morre com ela.”

Já a deputada Dandara (PT-MG) foi direta ao defender a bandeira como pauta feminista. “Combater desigualdades, garantir vida digna e bem-viver para as mulheres é assegurar o fim da escala 6×1”, disse. Dandara foi além e rebateu quem vê a pauta como restrita ao mundo do trabalho, alegando que “qualquer pessoa que defende a família tem que defender o fim da escala 6×1, porque o fim da escala 6×1 é mais tempo com a família”.

Por sua vez a deputada Erika Kokay (PT-DF) observou que “uma das urgências que temos que estabelecer nesta Casa é a necessidade de eliminarmos a jornada 6×1 — que, para as mulheres, não é 6×1, mas 7 a 0, porque é uma construção de gênero que estabelece os espaços privados, os espaços domésticos e os cuidados domésticos como exclusividade das mulheres”.
Representatividade e sobrecarga
A sessão foi aberta com um panorama da representatividade feminina no Congresso. “As mulheres da bancada feminina representam hoje 44% da produção legislativa deste poder institucional. Estamos presidindo oito comissões, além de termos presença na mesa diretora”, destacou a Coordenadora-Geral da Secretaria da Mulher da Câmara, a deputada Jack Rocha (PT-ES).
A deputada Carol Dartora (PT-PR) também observou durante a sessão, que as mulheres representam menos de 20% na Casa, sendo que formam a maioria da população brasileira: 51,5%. Mesmo em menor número no Parlamento, as mulheres são responsáveis por 44% da produção legislativa.
Os números da violência também dominaram os discursos. Segundo dados citados pela deputada Benedita, foram 21 milhões de vítimas em 2025, com mais de 37% das mulheres brasileiras tendo sofrido algum tipo de violência no mesmo ano. O levantamento aponta ainda 1.470 feminicídios em 2025 — quatro mulheres assassinadas por dia pelo simples fato de serem mulheres. “Políticas que defendam a vida das mulheres e das crianças não podem ser consideradas gasto, mas investimento na garantia das nossas vidas”, concluiu a parlamentar.
Violência estrutural

Já a deputada Maria do Rosário (PT-RS) trouxe ao plenário a dimensão estrutural da violência de gênero. “Ser mulher no Brasil é resistir todos os dias, principalmente diante deste contexto em que vivemos, onde o feminicídio é a forma mais grave da violência. As vítimas não conhecem o nome uma da outra, mas as circunstâncias das mortes são praticamente as mesmas”, afirmou.
A parlamentar também reagiu a episódios presenciados dentro do próprio Congresso. “A violência política neste espaço gera violência em todos os lugares. Nenhuma de nós a menos, porque nossas vidas valem, nossas vidas exigem respeito. Não queremos outra coisa senão o respeito e a dignidade que nos são devidos. Pela não violência”.
Cultura machista
Diante dos retrocessos vividos no governo Bolsonaro e alimentados por uma bancada extremista e misógina, a deputada Carol Dartora pontuou: “Quero fazer a denúncia de um período muito nefasto e perverso que vivemos, especialmente no governo anterior, em que houve uma criminalização muito grande da pauta feminista, uma criminalização das mulheres que defendem igualdade e a criminalização desse tema nas escolas”.
A parlamentar – que preside a Comissão de Cultura – também criticou os discursos de ódio que circulam nas redes sociais. “Não podemos mais aceitar esses discursos de red pills, de homens que odeiam mulheres. Uma mentalidade de que a mulher tem que ser subserviente”, afirmou.
Para Dartora, a solução passa necessariamente pelos homens: “A maior parte da violência cometida contra nós é cometida por homens. Isso também chama os homens à responsabilização e à desconstrução dos comportamentos que nos levam à morte”.

Fonte: Redação PT na Câmara
