Seu voto é o país que vem depois

Por Julimar Roberto*

No próximo domingo (4), milhões de brasileiros e brasileiras sairão de casa para escolher seus representantes. Representantes. R-E-P-R-E-S-E-N-T-A-N-T-E-S. Vale até desenhar, porque, em tempos de política tratada como torcida organizada e guerra santa, talvez seja necessário lembrar o significado da palavra. Presidente da República não é ídolo, influenciador, pastor, vingador, chefe de torcida nem membro honorário da família do eleitor. É representante. Alguém a quem entregamos, por quatro anos pelo menos, enorme poder sobre o presente e o futuro de mais de 200 milhões de pessoas. E talvez a pergunta mais importante antes de apertar o botão verde não seja “de quem eu gosto?”, mas “que projeto de país essa pessoa se propõe a construir?”.

Neste domingo, entre outras escolhas, decidiremos quem comandará o Brasil a partir de 2027. E os dois candidatos que chegam à reta final ocupando as primeiras posições nas pesquisas representam projetos políticos completamente diferentes. Não é preciso inventar nada. Basta abrir a gaveta da memória. De um lado está Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pela terceira vez, ao final de seu terceiro mandato. Sua trajetória política e a dos governos do mesmo campo que o sucederam estão ligadas à criação ou expansão de uma longa lista de políticas públicas: Fome Zero, Bolsa Família, Luz para Todos, Brasil Alfabetizado, Brasil Sorridente, Farmácia Popular, ProUni, Minha Casa, Minha Vida e Mais Educação. Depois, durante o governo Dilma Rousseff, sucessora de Lula, vieram programas como Brasil sem Miséria, Pronatec, Ciência sem Fronteiras, Lei de Cotas e Mais Médicos. Nos últimos anos, novamente sob Lula, surgiram Pé-de-Meia, Desenrola Brasil, Dignidade Menstrual, isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e – se você quiser – o fim da escala 6×1.

Um projeto político baseado em usar o Estado como instrumento de redução de desigualdades, ampliação do acesso à educação, saúde, renda, moradia e serviços públicos. Essa proposta está novamente diante do eleitor.

Do outro lado está Flávio Bolsonaro, e aqui também não é necessário inventar nada. O próprio candidato apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral o projeto que propõe para a nação. Seu programa prevê redução do tamanho do governo federal – o tal Estado mínimo –, corte de ministérios, privatizações, novo teto de gastos – que outrora já congelou investimentos em Saúde e Educação por 25 anos – e uma política de segurança pública muito mais centrada no endurecimento penal, em dar liberdade para mais barbárie contra a população de menor renda, ou seja, a população preta e pobre. Na segurança, estão propostas como construção de novos presídios federais, criação de aproximadamente 500 mil vagas no sistema prisional, redução da maioridade penal e endurecimento das penas. Na educação, aparecem escolas cívico-militares, cupons educacionais – para enriquecimento das instituições educacionais privadas – e mudanças nos métodos de alfabetização. Há ainda propostas para limitar poderes do Supremo Tribunal Federal, entre outras sandices e devaneios.

Não são interpretações tendenciosas. São relatos das propostas apresentadas pelo próprio campo político do candidato. E há outro elemento que merece entrar na urna junto com você: memória. Flávio Bolsonaro apresenta sua candidatura como continuação explícita do movimento político liderado por seu pai e mentor, Jair Bolsonaro. Isso significa que é legítimo examinar também a experiência concreta desse projeto quando esteve no Palácio do Planalto. Durante a pandemia de Covid-19, o Brasil ultrapassou 676 mil mortes registradas até julho de 2022, segundo informações do Tribunal de Contas da União citando dados oficiais do Ministério da Saúde. Em depoimento à CPI da Pandemia, o representante da Pfizer afirmou que a empresa ofereceu ao governo brasileiro 70 milhões de doses da vacina ainda em agosto de 2020 e não recebeu resposta dentro do prazo da proposta. O primeiro contrato com a empresa só seria assinado em março de 2021.

E a resistência de Jair Bolsonaro à vacinação também não ficou escondida atrás das portas do Palácio. O então presidente declarou publicamente diversas vezes que não havia se vacinado contra a Covid-19, questionou a vacinação de crianças e chegou a afirmar que sua própria filha menor de idade não receberia o imunizante. A postura pública irresponsável do chefe do Executivo ocorreu justamente em um período em que o país enfrentava uma profunda crise de imunização infantil. Relatórios do UNICEF mostram que a cobertura vacinal brasileira sofreu uma profunda deterioração após 2020, compondo uma das mais graves crises enfrentadas pelo Programa Nacional de Imunizações em mais de meio século. O resultado não ficou restrito a planilhas. O Brasil, que havia recebido em 2016 o certificado de eliminação do sarampo, perdeu esse status após o retorno da circulação sustentada do vírus em meio às baixas coberturas vacinais; no período, foram registrados 39.816 casos de sarampo no país.

Reverter esse quadro tampouco aconteceu da noite para o dia. A recuperação das coberturas começou a aparecer em 2022 e se acelerou a partir de 2023, exigindo campanhas de busca ativa e reconstrução da confiança na vacinação. Em julho de 2026, OMS e UNICEF destacaram o Brasil entre os países que mais avançaram nessa recuperação: o número de crianças que não haviam recebido sequer a primeira dose da pentavalente caiu de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025. Ou seja: reconstruir uma cultura de vacinação leva anos; para destruí-la bastam algumas falas irresponsáveis diante de uma câmera. Esses fatos pertencem à história. Não precisam de adjetivo. É verdade nua e crua. Não se trata de notícia falsa.

Também não é segredo que o governo Bolsonaro promoveu uma ampla flexibilização do acesso a armas de fogo, especialmente a partir de 2019, estimulando uma expansão expressiva do número de armas registradas e em circulação no país — muitas das quais continuam nas mãos de seus proprietários mesmo depois da revisão dessas regras. E esse debate ganha contornos ainda mais graves quando colocado ao lado da violência contra as mulheres. Estudos mostram que a presença de uma arma de fogo em situações de violência doméstica aumenta em 85% o risco de a agressão terminar em morte. Além disso, dados da Polícia Federal revelaram que 95,9% das armas registradas no Sinarm estavam em nome de homens, justamente em um país no qual milhares de mulheres são assassinadas todos os anos por companheiros ou ex-companheiros. Isso significa que colocar mais armas dentro das casas, em um contexto já marcado por níveis elevados de violência doméstica, está longe de ser uma decisão politicamente neutra. É uma decisão que mostra um lado, o do agressor. A arma que é apresentada no discurso como instrumento de “defesa da família” também pode se tornar uma ameaça, uma agressão ou uma crise doméstica muito mais letal. O eleitor pode concordar ou discordar dessa política. Mas precisa saber qual direção está escolhendo. E chegamos então a uma palavra que costuma aparecer em campanhas eleitorais acompanhada de indignação seletiva: corrupção. Flávio Bolsonaro já esteve no centro do chamado caso das “rachadinhas”, referente ao período em que era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Recentemente, Flávio Bolsonaro tornou-se formalmente investigado em inquérito relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Segundo documentos da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República tornados públicos pelo STF, Flávio atuava como interlocutor direto de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, nas negociações para obtenção de recursos destinados à produção. A Polícia Federal investiga possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e delitos correlatos. Investigação não é condenação, mas também não é elogio, decoração curricular nem detalhe irrelevante quando alguém pede para administrar a República.

Ainda segundo documentos das investigações, cerca de R$ 61 milhões ligados a Vorcaro aparecem no circuito financeiro examinado pela PF em torno da produção cinematográfica e de fundos relacionados ao caso. O próprio Banco Master tornou-se centro de uma investigação federal sobre suspeitas de fraude financeira bilionária. Portanto, antes que alguém transforme tudo isso em “fofoca eleitoral”, convém lembrar que quem está fazendo perguntas não é um grupo de WhatsApp. É a Polícia Federal. Quem autorizou e acompanha procedimentos é o Poder Judiciário. E quem terá de dizer, ao final, se houve crime ou não são as instituições competentes.

Da mesma maneira, vale até dizer que Flávio Bolsonaro não pode ser responsabilizado pessoalmente por cada ato cometido pelo governo Jair Bolsonaro. Mas, quando um candidato reivindica deliberadamente aquela herança política, apresenta-se como continuador daquele movimento e constrói sua candidatura sobre esse capital eleitoral, o eleitor tem todo o direito de perguntar: o que exatamente está sendo continuado? A política econômica? A política de armas? A relação com as instituições? A política ambiental? A condução da saúde pública? A visão sobre educação? A estratégia de segurança baseada cada vez mais em punição e encarceramento?

E, por falar em política ambiental, vou fazer um gancho e incluir soberania nacional. Nesse ponto, é importante prestar atenção também ao que Flávio Bolsonaro vem dizendo fora do Brasil sobre algumas das riquezas mais estratégicas que existem debaixo do nosso solo. Em março deste ano, durante evento nos Estados Unidos, afirmou que o Brasil seria “a solução” para que os norte-americanos reduzissem sua dependência da China em minerais críticos, especialmente as terras raras. Dois meses depois, após encontro com Donald Trump em Washington, prometeu que, se eleito, estabelecerá com os Estados Unidos uma “parceria estratégica de longo prazo” para a exploração desse setor, das terras raras, lembrando aos americanos que o Brasil possui uma das maiores reservas mundiais desses minerais, indispensáveis à indústria de alta tecnologia – Inteligência Artificial – e até aos equipamentos de defesa dos EUA.

É no mínimo curioso que essa oferta de aproximação estratégica seja feita justamente por uma família cuja relação política com Washington já ultrapassou há muito a diplomacia convencional. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, instalou-se nos Estados Unidos e atuou abertamente para pressionar o governo americano a adotar sanções contra autoridades brasileiras; posteriormente, foi condenado pelo STF por buscar interferência norte-americana nos processos envolvendo o pai. E foi nesse mesmo ambiente de pressão externa que empresas brasileiras acabaram atingidas por novas tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos — 25% sobre uma parcela das exportações nacionais, alcançando setores como móveis, máquinas, calçados, açúcar e etanol. Flávio e Eduardo negam – é claro – ter solicitado essas tarifas, mas o episódio deixa uma pergunta legítima sobre soberania: quando integrantes de uma família que pretende voltar ao comando do país recorrem ao governo de outra nação para pressionar instituições brasileiras e, simultaneamente, oferecem aos mesmos Estados Unidos acesso estratégico às nossas reservas minerais, quais interesses vêm primeiro na mesa de negociação — os do Brasil ou os de Washington?

É aqui que a comparação deixa de precisar de comparação. Porque uma eleição presidencial não exige que você ache um candidato simpático. Exige que você escolha um rumo. Um projeto aposta historicamente em programas de transferência de renda, expansão universitária, políticas de inclusão, habitação popular, saúde pública e presença do Estado na redução das desigualdades. Outro apresenta um Estado mínimo e repressor, com privatizações, forte endurecimento penal, expansão do sistema prisional, escolas cívico-militares e uma agenda institucional associada ao movimento político inaugurado por Jair Bolsonaro.

Votar exige mais trabalho que repetir slogan. O eleitor não precisa de santinhos para não errar na urna. O eleitor precisa é de memória. Precisa abrir os programas de governo, olhar o que cada candidato fez quando teve poder, examinar quem esteve ao seu lado, observar quais direitos ampliou, quais restringiu, quais políticas criou, quais pretende desmontar e, principalmente, que ideia de sociedade aparece por trás dessas decisões.

Porque, depois que a urna apita, não adianta dizer que não sabia. No domingo, você não estará escolhendo um personagem para dar match ou curtir nas redes sociais. Estará escolhendo quem nomeará ministros, conduzirá a política econômica, administrará centenas de bilhões de reais, indicará autoridades, sancionará ou vetará leis e comandará políticas que poderão acompanhar seus filhos e netos durante décadas. Por isso volto ao começo, devagar e sem pressa: R-E-P-R-E-S-E-N-T-A-N-T-E. Você está escolhendo alguém para representar aquilo que acredita que o Brasil deve ser. Antes de apertar “CONFIRMA”, descubra exatamente o que — e quem — essa pessoa representa.

*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

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