Brasil de prato cheio

Por Julimar Roberto*

“Quem tem fome tem pressa”. Poucas frases conseguem traduzir de maneira tão simples o tamanho de uma responsabilidade de governo. Porque a fome não espera a economia melhorar. Não espera o próximo orçamento. Não espera a burocracia. Não espera o mês seguinte.

Quem não sabe se terá o que comer amanhã precisa de respostas imediatas.

Luiz Inácio Lula da Silva conhece essa realidade não pelos livros ou pelas estatísticas. A fome fez parte de sua própria história. E talvez por isso tenha transformado seu enfrentamento em uma das marcas de seus governos.

Quando retornou à Presidência da República, em janeiro de 2023, encontrou um Brasil que havia voltado a conviver com uma realidade que imaginávamos ter deixado para trás.

Em 2022, cerca de 33 milhões de brasileiros estavam em situação de fome.

Para um país que produz comida suficiente para alimentar centenas de milhões de pessoas, não existe contradição mais cruel.

O problema nunca foi a falta de capacidade do Brasil de produzir alimentos. O problema é a vontade política para garantir que eles cheguem a todas as mesas. E foi exatamente aí que Lula começou a agir.

Uma das primeiras decisões foi reconstruir aquilo que havia sido desmontado.

O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Consea, voltou a funcionar. Políticas de segurança alimentar foram retomadas. E, ainda em 2023, Lula lançou o Plano Brasil Sem Fome, reunindo 80 ações de 24 ministérios e cerca de 100 metas.

Não era apenas um novo programa social. Era uma estratégia para fazer diferentes áreas do governo trabalharem com um mesmo objetivo: colocar comida na mesa do povo brasileiro.

O plano reuniu políticas de aumento da renda, redução da pobreza, produção de alimentos, agricultura familiar, alimentação saudável, assistência social e mobilização contra a fome.

Porque a fome tem muitas causas. E, portanto, também precisa ser combatida por muitos caminhos.

O primeiro deles é o mais evidente: dinheiro no bolso de quem precisa. O Bolsa Família foi retomado em novo formato, com valor mínimo de R$ 600 por família e adicionais voltados especialmente às famílias com crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes. Ao mesmo tempo, Lula retomou a política de valorização permanente do salário mínimo, fazendo com que o piso nacional voltasse a ter aumento acima da inflação.

Isso importa diretamente quando falamos de fome.

Salário mínimo não é apenas um indicador econômico. É o rendimento de milhões de trabalhadores e trabalhadoras, e também referência para aposentadorias, pensões e benefícios.

Quando a renda de quem está na base cresce, uma das primeiras coisas que melhora é justamente a capacidade de comprar comida. Por isso, a meta de voltar a comprar picanha fazia tanto sentido. Ainda mais quando a realidade de muitos brasileiros era enfrentar uma fila para conseguir ossos.

O próprio balanço do Brasil Sem Fome coloca o novo Bolsa Família e a valorização do salário mínimo entre os elementos centrais da estratégia de ampliação da renda das famílias mais pobres.

Mas não basta garantir renda para quem compra. É preciso olhar para quem produz. Por isso, outra frente importante foi a retomada e o fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos, o PAA.

A lógica é inteligente porque resolve dois problemas ao mesmo tempo. O poder público compra alimentos produzidos principalmente pela agricultura familiar e direciona essa produção para pessoas em situação de vulnerabilidade e para equipamentos de segurança alimentar.

Ou seja: gera renda no campo e coloca comida na mesa de quem precisa.

O governo Lula também ampliou os recursos destinados à agricultura familiar por meio dos Planos Safra e retomou políticas que aproximam a produção de alimentos de quem mais necessita deles. Essas medidas estão entre aquelas apontadas na trajetória que permitiu ao país voltar a deixar o Mapa da Fome.

Essa é uma dimensão importante dessa luta.

Combater a fome também significa fortalecer quem planta feijão, mandioca, arroz, frutas, verduras e tantos alimentos que fazem parte da mesa brasileira.

Outra decisão tomada por Lula logo no início do seu terceiro mandato atingiu diretamente milhões de estudantes.

Depois de anos sem reajuste adequado, o governo federal aumentou os valores destinados ao Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE. Pode parecer apenas uma rubrica do orçamento público. Para uma criança em situação de vulnerabilidade, não é.

Muitas vezes, a refeição servida na escola está entre as mais importantes do dia.

Garantir alimentação escolar de qualidade significa combater a fome no presente e proteger o desenvolvimento de uma geração inteira.

Não por acaso, o reajuste do PNAE aparece entre as primeiras medidas tomadas pelo governo Lula dentro da reconstrução da política nacional de segurança alimentar.

Também foram criados e fortalecidos mecanismos para alcançar quem muitas vezes não consegue chegar às políticas públicas tradicionais.

As cozinhas solidárias passaram a integrar a estratégia nacional de combate à fome, assim como iniciativas de abastecimento alimentar e mecanismos para identificar os territórios e as famílias em maior situação de vulnerabilidade.

O Plano Brasil Sem Fome passou a trabalhar inclusive com o mapeamento do risco de insegurança alimentar nos municípios, justamente para permitir que o poder público saiba onde estão aqueles que mais precisam de ajuda.

Porque combater a fome não é apenas criar um programa em Brasília. É fazer a política chegar à periferia, ao campo, às comunidades tradicionais e à casa de quem precisa.

É dentro dessa mesma lógica que devemos compreender uma das mudanças trazidas pela regulamentação da Reforma Tributária. Em janeiro de 2025, Lula sancionou a lei que regulamentou parte importante do novo sistema de tributação sobre o consumo.

Entre as mudanças está a criação de uma Cesta Básica Nacional de Alimentos com alíquota zero de IBS e CBS, os novos tributos criados pela reforma. A legislação determina alíquota zero para os produtos que integram essa cesta.

A reforma também criou um mecanismo de cashback, que permitirá a devolução de parte dos tributos sobre o consumo às famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único.

É uma mudança importante porque o peso dos impostos sobre o consumo historicamente atinge de maneira desproporcional quem ganha menos.

Por isso, zerar os novos impostos sobre os alimentos da cesta básica também é uma política social. É outra maneira de proteger o prato do trabalhador.

Nenhuma dessas medidas, sozinha, seria capaz de resolver um problema tão profundo. É justamente a combinação delas que começa a explicar o que aconteceu no Brasil nos últimos anos.

  • Bolsa Família;
  • Salário mínimo valorizado;
  • Emprego e renda;
  • Alimentação escolar;
  • Agricultura familiar;
  • Compra pública de alimentos;
  • Cozinhas solidárias;
  • Fortalecimento das políticas de segurança alimentar;
  • Brasil Sem Fome.

E agora uma reforma tributária que estabelece imposto zero para os alimentos da cesta básica nacional.

Os resultados dessa soma são concretos. Dados consolidados pelo governo indicam que, comparando a situação encontrada em 2022 com os resultados de 2023 e 2024, cerca de 26,5 milhões de brasileiros deixaram a situação de fome.

E, em julho de 2025, veio uma notícia carregada de significado: o Brasil estava novamente fora do Mapa da Fome da ONU.

O indicador utilizado pela FAO colocou o país abaixo do patamar de 2,5% da população em situação de subalimentação. A meta que o governo pretendia alcançar até 2026 foi atingida antes.

Isso não significa que a fome acabou. Enquanto existir uma única família sem saber se haverá comida suficiente amanhã, existe trabalho a fazer. Mas significa que o Brasil voltou a caminhar na direção certa.

Talvez essa seja a principal questão. Combater a fome é também uma escolha política.

Um governo escolhe onde coloca dinheiro. Escolhe quais programas prioriza. Escolhe quem será protegido pelo orçamento. Escolhe se o salário mínimo ganha ou perde poder de compra. Escolhe se compra alimentos da agricultura familiar. Escolhe quanto investe na merenda das crianças. Escolhe se organiza ou desmonta políticas de segurança alimentar.

E escolhe até mesmo se a comida terá tratamento diferenciado na hora de cobrar impostos.

Desde 2023, essas escolhas voltaram a apontar para uma direção muito clara: a fome não pode ser tratada como uma fatalidade.

O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do planeta. Temos terra, temos agricultores, temos tecnologia, temos capacidade produtiva. Não podemos aceitar que falte comida no prato de um brasileiro.

Lula repete há décadas que deseja um país em que todas as pessoas possam tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Pode parecer uma ambição simples. Não é.

Para quem conhece a fome, isso significa dignidade. Significa uma mãe não precisar diminuir a própria refeição para alimentar os filhos. Significa uma criança conseguir estudar depois de comer. Significa um trabalhador não precisar escolher entre comprar comida ou pagar outra conta essencial.

Significa poder olhar para o dia seguinte sem medo de que falte o básico.

O Brasil já provou que é possível vencer a fome. Provou uma vez e está provando novamente. Mas essa luta não permite acomodação. Porque enquanto houver fome, haverá urgência.

E Lula sabe disso talvez melhor do que qualquer outro presidente da nossa história.

Quem tem fome tem pressa.

*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

LEIA TAMBÉM

COMENTÁRIOS