Herdeiro recebe sobrenome, mas não aprende a carregar a coroa

Por Julimar Roberto*

Há heranças que vêm com riquezas e brigas familiares. A de Flávio Bolsonaro veio com algo muito mais valioso na política brasileira, um sobrenome transformado em marca.

Jair Bolsonaro entregou ao filho 01 uma base eleitoral pronta, um movimento político organizado em torno do clã, milhões de seguidores fiéis, símbolos, slogans, mártires, inimigos, uma narrativa de perseguição e até os lugares sagrados da liturgia bolsonarista. A campanha de Flávio não faz questão de esconder a tentativa de sucessão. O senador recupera a estética do pai e o leva simbolicamente para onde quer que vá, chegando a utilizar traços do ex-presidente em material eleitoral. O próprio Jair o escolheu como sucessor.

Era para ser uma transmissão de patrimônio político, mas o caldo está entornando. Porque Flávio Bolsonaro recebeu o sobrenome, mas aparentemente veio sem manual de instruções.

O candidato que pretende convencer o Brasil de que está preparado para administrar o país passou os últimos meses ocupado tentando organizar coisas um pouco mais elementares como sua relação com um banqueiro preso, as explicações sobre milhões destinados a um filme sobre o próprio pai, fantasmas antigos de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, sua filiação partidária e, como cereja do bolo, o próprio currículo.

É uma espécie de vestibular presidencial ao contrário. Quanto mais o candidato tenta apresentar suas credenciais, mais inconsistências aparecem. É como mexer em lixo acumulado, quanto mais se remexe, mais o fedor se espalha.

O caso Banco Master talvez seja o melhor retrato dessa contradição.

Daniel Vorcaro, dono do banco liquidado pelo Banco Central, tornou-se personagem central de uma investigação gigantesca sobre fraudes financeiras. A Polícia Federal estima em aproximadamente R$ 12 bilhões a fraude relacionada ao banco. Vorcaro foi preso e o caso passou a envolver personagens de diferentes espectros da política brasileira.

É importante fazer essa ressalva porque ninguém precisa transformar Flávio Bolsonaro em responsável pelo rombo do Master para perceber o tamanho do problema político.

O que veio a público já é suficientemente extraordinário. Vamos relembrar.

Segundo reportagem do Intercept posteriormente confirmada em seus aspectos centrais pelo próprio senador, Flávio negociou com Vorcaro um compromisso de financiamento de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões à época — para um filme sobre Jair Bolsonaro. O senador reconheceu que o banqueiro havia concordado em financiar a produção, mas afirmou que se tratava de patrocínio privado para um projeto privado, sem dinheiro público, sem vantagem oferecida em troca e sem recebimento pessoal de recursos.

Até aí, temos a versão de Flávio e ela deve ser registrada.

O problema é aquilo que aconteceu imediatamente antes.

Horas antes de as mensagens se tornarem públicas, Flávio disse a jornalistas em Brasília que não tinha associação com Vorcaro. Já havia dado explicação semelhante em março, quando seu número apareceu entre os contatos encontrados pela investigação. Depois vieram áudios e mensagens mostrando o senador cobrando recursos para o filme e tratando diretamente com o banqueiro.

Um pequeno inconveniente para quem deseja ser presidente da República, a realidade apareceu antes da assessoria conseguir terminar a versão oficial.

E então conhecemos uma das características mais fascinantes da candidatura Flávio Bolsonaro. As explicações chegam sempre atrasadas, alguns metros atrás dos fatos, correndo, ofegantes, tentando alcançá-los.

O problema não é apenas perguntar se houve crime. O problema político é outro.

Um candidato cuja principal mercadoria eleitoral é a denúncia do “sistema” precisou explicar por que estava pedindo dezenas de milhões de dólares justamente ao banqueiro que se tornou personagem central de um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.

Em julho, foi aberta no STF investigação envolvendo Flávio e os repasses relacionados ao filme Dark Horse, após a PGR considerar que havia elementos suficientes para a instauração formal de inquérito.

Mas o Master não surgiu sobre uma biografia politicamente imaculada. Muito antes de Daniel Vorcaro entrar no enredo, havia Fabrício Queiroz.

Em 2020, o Ministério Público do Rio denunciou Flávio no chamado caso das rachadinhas de seu antigo gabinete na Alerj. As acusações incluíam organização criminosa, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e peculato.

Quer mais?

Reportagem da Folha publicada em março deste ano mostrou que permaneceram sem explicação pública questões relacionadas à origem de dinheiro vivo empregado em despesas e transações imobiliárias. Segundo os dados da investigação citados pelo jornal, entre 2007 e 2009 doze salas comerciais foram adquiridas por R$ 297 mil, com quase todo o pagamento feito em espécie, nota por nota. Investigadores também apontaram pagamentos em dinheiro de impostos, móveis, passagens, plano de saúde e despesas escolares. Flávio sempre negou irregularidades, é claro.

Portanto, o filho 01 chega a 2026 com uma vantagem narrativa curiosa: não precisa apresentar suas polêmicas ao eleitor. Todo mundo já conhece muitas delas. Mas vale continuar acompanhando, porque, ao que tudo indica, ainda há muito mais por vir.

E então chegou 13 de agosto de 2026. Quando parecia que o roteiro já estava satisfatoriamente absurdo, Flávio Bolsonaro tentou registrar sua candidatura à Presidência pelo PL e descobriu que, para a Justiça Eleitoral, estava filiado ao Missão, partido ligado ao MBL.

É preciso ser justo com Flávio aqui, pois tudo indica que ele não pediu essa filiação.

Segundo o TSE, houve uso indevido das credenciais do sistema partidário. O presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, restabeleceu ainda na quinta-feira a filiação original de Flávio ao PL e encaminhou o caso à Polícia Federal para investigação. Não houve, portanto, fracasso de Flávio em se filiar ao PL. O Senador estava filiado ao partido desde novembro de 2022; uma filiação posterior e fraudulenta ao Missão cancelou automaticamente a anterior e bloqueou temporariamente o registro de sua candidatura.

Mas, o susto valeu.

Flávio chamou o episódio de tentativa do “sistema” de impedi-lo e disse que Deus estava no comando. O TSE, bem menos metafísico, informou que não houve invasão hacker, alguém com credenciais partidárias utilizou indevidamente a ferramenta. O Missão também declarou ter sido vítima da fraude e afirmou ter avisado o gabinete do senador anteriormente. A Polícia Federal agora deverá descobrir quem fez a operação.

Mas há uma ironia irresistível. Depois de anos de uma família política transformando qualquer pane, dúvida ou derrota em suspeita contra o sistema eleitoral, coube justamente a um Bolsonaro depender do TSE para recuperar sua filiação e salvar sua candidatura.

Às vezes a História debocha. Mas nenhuma alegoria supera o currículo.

Perfis oficiais de Flávio Bolsonaro no Senado e na Alerj informavam que ele possuía pós-graduação em “ciências políticas”. Na biografia da Assembleia, havia um detalhe ainda mais sofisticado, o curso teria sido realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A UFRJ foi procurada e um pequeno problema acadêmico foi encontrado. Flávio Bolsonaro não aparece em seus registros como aluno do curso.

A universidade informou não haver registro do senador em seu sistema acadêmico desde sua criação, em 2001. A mesma qualificação aparecia em uma página do LinkedIn associada a Flávio, posteriormente suspensa. A Alerj informou que os dados biográficos de deputados são enviados pelos próprios parlamentares.

A campanha respondeu que se tratava de “erro ou equívoco”, sugerindo que a informação poderia ter sido retirada de páginas como a Wikipédia, e pediu a correção.

E eis que chegamos ao elemento que conecta quase todos esses episódios.

Quando surge Vorcaro, é uma relação privada sem contrapartida.

Quando surge a pós-graduação inexistente, é erro da assessoria ou da Wikipédia.

Quando surge a filiação fraudulenta, é o sistema tentando pará-lo — embora, nesse caso, haja de fato indícios concretos de fraude e o próprio TSE tenha determinado investigação.

Flávio parece estar sempre presente no centro da fotografia e estranhamente ausente quando chega a hora de explicar quem apertou o botão.

Jair Bolsonaro construiu uma liderança baseada numa combinação muito particular de identificação popular, confronto permanente e culto à personalidade. Seus adversários podem detestá-lo; seus seguidores podem venerá-lo. O fato político é que ele foi capaz de transformar o próprio nome num movimento nacional.

Flávio recebeu esse movimento pronto. Mas herdar os seguidores do pai não significa herdar sua capacidade de mobilizá-los.

A herança recebida pelo senador não está sendo suficiente para livrá-lo do isolamento, da ausência de alianças partidárias e do desgaste provocado pelas notícias sobre sua relação com Vorcaro. Talvez esteja aí a tragédia particular de Flávio Bolsonaro.

O filho 01 quer apresentar-se como Bolsonaro 2.0, uma versão mais polida, moderada, institucional e palatável do pai.

Mas, a cada nova semana, parece precisar mais desesperadamente da versão 1.0 para lembrar ao eleitor por que deveria estar interessado na cópia.

Até onde um homem consegue chegar carregado pelo capital eleitoral do pai? Se retirarmos de Flávio Bolsonaro o sobrenome que lhe abriu tantas portas, o que resta?

A amizade com um banqueiro encrencado; os R$ 134 milhões prometidos para um filme; uma investigação no STF; o fantasma da rachadinha; uma pós-graduação cercada de controvérsias; e o fiasco no registro da candidatura. Para alguém que pretende vender ao eleitor a ideia de continuidade, é uma estreia e tanto.

Flávio Bolsonaro pode até tentar transformar o legado do pai em plataforma eleitoral. Mas, em 2026, não basta carregar um sobrenome conhecido. Será preciso convencer o eleitor de que existe ali um projeto próprio, uma trajetória que se sustente sem a sombra paterna e, sobretudo, uma história capaz de sobreviver ao escrutínio público. A sorte está lançada e quem viver, verá.

*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

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